sábado, 30 de maio de 2015

Caim: o Abel que não deu certo. Ou deu?

Um Índio

Estou deixando a cidade de Porto Velho. Na última rotatória antes de entrar na BR 364 me deparo com uma escultura em chapa de ferro dobrado representando um indígena. O que me impressiona na obra, além de seu aspecto modernista, é o efeito tridimensional que o artista plástico Júlio Carvalho conseguiu causar: no centro da rotatória, o “índio” de sete metros de altura parece fazer com que a direção de sua flecha acompanhe o movimento do veículo.


Contudo, a obra que fora inaugurada em vermelho vivo em 2006, hoje encontra-se coberta de ferrugem, talvez para combinar com o restante dos monumentos históricos de Porto Velho.
Pesquisando, descubro que existem pelo menos 11 diferentes povos indígenas, distribuídos em 20 terras indígenas, totalizando cerca de 11 mil pessoas. Não vi nenhum. Não fosse o “índio de ferro” na rotatória da BR 364 não haveria visto nenhum sinal de “presença indígena” em Rondônia.
As condições da BR 364 dali em diante variam bastante. Em geral são melhores do que no Acre. Em muitos trechos a pista é irregular e o tráfego de caminhões também se intensifica, exigindo dose maior de cautela nas ultrapassagens.



Nos municípios que se cruza ao longo da BR há uma boa oferta de serviços, inclusive mecânicos. Vou precisar, porque o cabo do acelerador partiu. Por sorte, no movimento de volta, dificultando a desaceleração da moto, mas não a sua aceleração. Uma rápida “gambiarra” me ajuda a seguir viagem sem problemas.
Percebo que em alguns trechos desmatados ao longo da rodovia alguém teve o cuidado de replantar árvores nativas, tornando a viagem especialmente agradável nestes trechos.
Um destaque também é a serra de Jaru: uma bem-vinda alteração na paisagem com pedras e curvas deleitosas aos olhos e ao movimento da moto.
Meu destino é a cidade de Vilhena, no extremo sul do estado. Para tanto são necessários percorrer pouco mais de 700 kms. Meu corpo já começa a dar sinais de desgaste quando anoitece. Eucaliptais intermináveis lançam sua sombra na rodovia. Sua regularidade geometricamente calculada me soa a um só tempo fantasiosa e ameaçadora: me faz recordar da célebre “marcha dos martelos” de Pink Floyd em “The Wall”.
Finalmente chego a Vilhena. Já nas suas ruas, percebo uma cidade que parece estar vivendo o “sonho sertanejo” em sua plenitude. Apropriadamente, a juventude celebra nas esquinas, com cerveja e música alta, o seu “zeitgeist”: o espírito de um tempo marcado pelo capitalismo movido pelo agronegócio.
A avenida central de Vilhena impressiona pelo seu ar de “modernidade”. Lojas caras e “chiques”, bares e restaurantes. Vida Noturna, enfim.
Em uma pizzaria (muito boa a massa, por sinal), vou me encontrar com o meu interlocutor.
Magno é funcionário de um órgão do judiciário estadual. Suas primeiras palavras são um desabafo de quem assiste às mais variadas formas de corrupção, mas se vê impotente diante dela. O favoritismo parece dar o tom das relações interinstitucionais.

- Um alto escalão teve a cara de pau de fazer passar na ALERO uma lei que permite que um funcionário se afaste do cargo para estudar, mantendo a sua remuneração. A mulher do sujeito está lá agora, no Paraná, recebendo sem trabalhar. Agora pergunte se eu consigo um benefício destes? Todas as vezes que eu solicitei, claro, foi negado.

Esta relação entre Paraná e Rondônia é tão evidente que me faz lembrar daquela história dos portugueses plantando cana no Brasil e mandando os filhos estudar na Europa. Não é coincidência: é a mesma estrutura colonial se reproduzindo ao longo dos séculos.

- Sabe, eu acho que Rondônia foi colonizada pelo paranaense que não deu certo.
- Não deu certo? Como assim?
 - As pessoas que não conseguiram espaço no Paraná, por vários motivos, acabam vindo para cá. Muita gente veio por que aprontou tanto no Paraná que se vê obrigado a ir embora.
- Bem, talvez eu seja um paulista que não deu certo também
- Talvez, mas eu não falo nesse sentido. Falo de gente que busca oportunidade de enriquecer e se dar bem a qualquer custo, passando por cima de tudo e de todos. São esses que dão as cartas em Rondônia. E sabe o que é mais curioso: isso é uma história que se repete. Afinal, o que é o Paraná? É o gaúcho que não deu certo. O Paraná foi colonizado por gente que não conseguiu se estabelecer no Rio Grande do Sul, e assim, a roda gira e continua a girar.

No dia seguinte de manhã pego minha moto e vou atravessando a avenida principal. Sigo adiante admirando as lojas da moderna Vilhena: roupas, calçados, lanchonetes e opa, pera aí... uma cafeteria. Nada como uma dose de cafeína para cair na estrada.
Em Vilhena, tudo me parece contente e feliz em seu lugar: uma cidade bem-resolvida com sua vocação. Não há nada que me faça lembrar que ali, ainda estou na Amazônia. Mas quando estou na última esquina e vou virar à esquerda para voltar à BR, um grafite, me faz uma provocação diferente:

-Você pode viver com menos, diz    



Tanque cheio, pneus calibrados e cafeína no sangue, estou pronto para mais um trecho.
Na estrada, o vento já é meu companheiro de novo. Vou pensando nas palavras de Magno, sobre Rondônia ser o paranaense que não deu certo. É quando o meu capacete me diz:
- Ora, não é afinal a história de toda a humanidade: sempre partindo, de um lugar a outro, pelas mais variadas razões. O que é Caim, se não o Abel que não deu certo?
- Talvez tenha dado mais certo que Abel. Afinal, ele sobreviveu. Abel morreu, e Caim viveu para conhecer os caminhos aonde a estrada iria lhe levar.


*Leandro Altheman é jornalista e escritor, autor do livro "Muká, a Raiz dos Sonhos”, que pode ser encontrado em Rio Branco, nas livrarias Nobel e Paim ou pelo telefone (68) 9281-3087 (Gesileu) em Cruzeiro do Sul com Edna Rosas (68) 9959-1658 ou com o próprio autor através do email leandroke@yahoo.com.br

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Um Brinde à Roda de Sansara

Mamão com açúcar.

Dia de sol, pouco trânsito, estrada boa. Os 88 km que me separavam de meu destino, Porto Velho foram um passeio.

Vini, Vidi, Vince. Esta poderia ser a frase do dia. Mas não aplicada a mim que tinha percorrido apenas 1.200 km entre Cruzeiro do Sul e Porto Velho.

Caminho muito mais longo fizera a cruzeirense Sandra Braz ao sair de sua cidade natal e se estabelecer, sozinha na capital de Rondônia.

Pouca gente sabe, mas meu primeiro emprego em Cruzeiro do Sul foi em um posto de gasolina. Nada se parecia mais com o fim da linha do que aquele posto. A BR pela qual chegara desmanchava-se em lama agora que o inverno amazônico mostrava quem manda. Contudo, aquela sensação de que ruíam as pontes por onde andei para chegar até aquele “fim de linha”, causavam-me uma excitação inexplicável. À minha frente havia apenas um terreno fértil e a mata virgem, uma página em branco de uma história ainda a ser escrita. Era setembro de 2000.

Foi quando conheci Sandra que também trabalhava no mesmo posto. Sua percepção naquele momento era exatamente a oposta da minha: estava tomada de uma inquietação tremenda de quem está mas quer ir.

Se para mim Cruzeiro do Sul era um terreno virgem, para Sandra aquelas ladeiras levariam apenas aos mesmos lugares da qual já estava cansada de saber aonde iam. Se hoje, Cruzeiro do Sul ainda tem poucas oportunidades para os jovens, em 2000 esta realidade era ainda mais evidente. E muito mais cruel para as mulheres, que na maioria das vezes, tinham como única opção arrumar quem sabe talvez um bom, ou até mesmo um mau, partido.

Mulher, jovem e recém-separada, Sandra enfrentou com galhardia a cidade de Porto Velho.  

É certo, que não lhe faltou o atributo normalmente associado aos homens da coragem, mas além disso, teve também o charme de quem se reinventou para ser dona do próprio nariz.
Formada e concursada pôde sustentar um padrão de vida bom, com as comodidades de uma cidade grande e uma liberdade que jamais teria conquistado em Cruzeiro do Sul.

Mas ora, vejam só, esta vitoriosa também sente aquele vazio costumeiro, companheiro conhecido de quem se realiza perante a sociedade e a si mesmo, mas que de repente sente que falta algo.

Sandra não tem o perfil de quem iria buscar consolo na porta de uma igreja, ou no altar. Chega de dogmas por esta encarnação! 

E de repente, nas margens do rio madeira, brilha a luz de Sidarta, e o budismo, passa a ser referência de uma possível reconexão espiritual, sem a necessidade de ter que se moldar a padrões sociais da qual tão custosamente, se desfez. Sim, na terra do minério e da soja, também verdeja lá uma “sanga”, nome que é dado às comunidades budistas.

É essa Sandra, desfeita e refeita que me leva a conhecer por Porto Velho.

Noto que não há nada digno de nota. A região que poderia ser chamada de histórica é pouco frequentada e não faz parte do roteiro da cidade. Não vi praças ou memoriais significativos e o monumento mais chamativo é uma réplica brega da Estátua da Liberdade. 


Tomada como símbolo de uma rede de multi-lojas, vou descobrir ao longo da viagem que são dezenas, ou talvez centenas destas réplicas espalhadas pelo Brasil. Talvez esta estátua imponente esteja dizendo que em Porto Velho quem manda mesmo é o mercado e que o poder público tem mais é que se curvar perante a esta divindade.

Para um viajante que passa simplesmente, não há melhor ou pior e o certo a se fazer é se adaptar às circunstâncias. A vida é curta, a estrada é longa e não há tempo para discursos. E nesse caso, em Porto Velho, nada melhor que aproveitar aquilo que a divina iniciativa privada proporciona como cinemas, restaurantes e é claro, cafeterias.

São os templos de consumo frequentados por quem gosta de ler e escrever. Para quem gosta de boa música e bom papo. E assim, entre uma xícara de café e outra, Sandra me põe a par dos fundamentos do budismo.

- Não fazer o mal ao próximo e praticar o desapego das coisas já é um bom começo, explica-me. A única constante deste mundo é a impermanência, então, desapegar-se é a única maneira de ser realmente feliz.

Nesse momento, lembro-me da prática dos monges tibetanos de passar horas e até dias desenhando intermináveis e intrincadas mandalas. A partir de grãos de areia coloridos eles fazem verdadeiras obras de arte, e quando prontas, apenas as olham por segundos e as desmancham novamente. Este é o real sentido de sua arte: provar que a vida é feita de beleza e impermanência.



- O objetivo maior, contudo, vai mais além, continua. É despertar da ilusão deste mundo, libertar-se desta aparente realidade, esta roda continua de vida, morte e renascimento. Todos estamos presos a este ciclo, à roda de Sansara. Alcançar o vazio absoluto é atingir o Nirvana, a iluminação.
- Sandra, eu não quero sair da Roda de Sansara. Como é bela esta impermanente mandala em que vivemos: sol e chuva, serras e mares, tantos caminhos e eu com o tanque cheio da minha moto para percorrê-los.
-Sim, é uma bela mandala.
-Então eu proponho um brinde: brindemos à Roda de Sansara

-Um Brinde à Roda de Sansara!

sexta-feira, 15 de maio de 2015

A morte é uma noiva

A partir daqui, no blog agora rebatizado de "Narrativas em Duas Rodas" (antes Brasil-Peru em Duas Rodas), passo a relatar as minhas viagens não mais com a XTZ  125, mas com a Lander 250. Estes relatos tiveram início em fevereiro de 2015. 

A morte é uma noiva

Primeiro Trecho (Cruzeiro do Sul-Rio Branco)
A viagem teve início pela BR 364 em Cruzeiro do Sul. Para um viajante que inicia seu trajeto pelo ponto extremo noroeste do Brasil em direção ao sudeste, a sensação será de que as rodovias melhoram gradativamente a medida em que se aproximam de São Paulo.
Minha percepção da rodovia, em fevereiro, por aquilo que venho acompanhando na imprensa do estado, certamente expirou e as condições da BR parecem ter piorado bastante desde então. Mas, mesmo naquela época, já era possível afirmar que este trecho da BR 364 apresenta as piores condições de trafegabilidade de todo o trajeto. Contudo gosto de fazer a ressalva que este não é o trecho mais perigoso. Mais adiante irei descrever algumas situações pela qual passei em regiões de tráfego intenso de caminhões.
A rodovia obriga o condutor a manter na maior parte do trajeto, uma velocidade compatível com a segurança, que no meu caso variava entre 70 e 85 km/h em média. Com exceção dos dois trechos consolidados (Juruá-Liberdade e Sena Madureira-Rio Branco), onde é possível manter uma velocidade maior, acima disso é flertar com a morte.

Segundo trecho Rio Branco- Porto Velho (550Km)

A BR 364 segue em bom estado a partir da saída de Rio Branco, e contrariando minhas expectativas, piorou consideravelmente a partir da divisa com Rondônia.

É necessário realizar a travessia do rio Madeira de balsa, o que acrescenta cerca de 30 minutos à viagem.
A travessia é paga e o pagamento deve ser feito em um guichê, antes de se adentrar à balsa.
A partir da travessia, a qualidade da pista melhora sensivelmente. Este foi justamente o trecho mais danificado pelas alagações do ano de 2014, que isolaram o estado do Acre do restante do país. Ainda não foi totalmente refeito, e sempre há o risco que novas alagações venham a cobrir novamente a pista.
Por muitos quilômetros é possível perceber a marca da linha d’água da última alagação nas árvores ao redor. Fico de pé no estribo de minha moto e esta marca atinge a altura do meu peito.
Chego ao município de Jaci-Paraná ao anoitecer. Está caindo uma chuva fraca e decido seguir em frente, afinal, são apenas 88 km que me separam de Porto Velho. 
Cerca de dez ou quinze minutos depois na estrada a chuva torna-se torrencial e a noite toma conta da estrada. Penso que está tudo bem, afinal, tenho uma jaqueta para me proteger e o farol ilumina à frente. Mesmo encharcado, sigo adiante mais alguns quilômetros. Aparece a primeira curva, e o caminhão que vem no sentido contrário me deixa completamente “encandeado”. Percebo que com a chuva e a escuridão, não é mais possível determinar a trajetória dos veículos que vem no sentido contrário. Risco de colisão frontal ou de sair da pista. Meu instinto de preservação fala mais alto. Dou a meia volta em direção à Jaci-Paraná. Lá encontro uma hospedagem. Acerto minha diária e retiro a bagagem da moto.
Encharcado, percorro a sala e o corredor em direção ao apartamento. Gelado, retiro minhas roupas e ligo o chuveiro quente. Meu corpo está tenso. É o medo. Fecho os olhos água debaixo da água quente e à medida que meu corpo relaxa, vejo que a morte estava me esperando, tal qual noiva ansiosa, a duas curvas adiante de onde voltei.


A deixo esperando no altar.     

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Cruzando a Fronteira Impossível


A disposição de tentar cruzar a fronteira de volta para o Brasil através de sua rota mais improvável foi também uma tentativa de mostrar quão absurdo é a condição de estar tão próximo e ainda assim tão longe, de um país vizinho que tem tanto a nos oferecer.
A rota escolhida passava por dois dias de barco subindo o rio Ucayalli até a municipalidade de Bolognesi. Dalí partiria de motocicleta através de uma estrada aberta por madeireiros, até a municipalidade do Breu, ainda em território peruano, mas já em pleno “Vale do Yuruá”.
O que ocorreu foi que a grande falta de informações precisas sobre a rota, acabaram por inviabilizá-la. Enquanto alguns afirmavam ser totalmente possível, outros já desestimulavam a tentativa, por cinta de que as chuvas já haviam começado. Outro problema também é que ainda que a rota apareça nos mapas do Ministério dos Transportes do Peru (UC 105) como uma via estadual, na pratica ela é apenas uma rota de madeireiros que passa por dentro de Terras Indígenas (em sua maioria Ashaninkas peruanos). Em Pucallpa chegava a notícia de que um motociclista australiano teria sido detido pelos indígenas dentro de suas áreas.
Todas estas dificuldades trouxeram aliados inesperados, o “Charapa’s Rally Club”, equipe de motociclistas pucalpinos acostumados a fazer o impossível em termos de motociclismo em terras amazônicas.
Fizemos contato com o engenheiro da empresa madeireira responsável pela rota para que este nos autorizasse a passar. Este apenas nos disse que a autorização caberia na verdade às comunidades indígenas. Entramos em contato com as lideranças através de suas representações na cidade e estes nos expediram uma autorização. Apesar disso, a diretoria da organização através de rádio, obteve a informação de que pelo menos uma das quatro pontes, já estavam cobertas de água, inviabilizando esta rota.
A única alternativa então era então embarcar a motocicleta em um vôo para a municipalidade de Breu, mas dias seguidos de chuva impossibilitavam a aterrissagem de qualquer aeronave na sua pista de terra.
Depois de mais de uma semana de espera, consegui finalmente embarcar a motocicleta e atravessar o Ucaially, passando bem próximo à nascente do rio Yuruá.
No Breu (antigo Tipisca), consegui uma carona até a Foz do Breu, já em território brasileiro e no mesmo dia, um grupo de indígenas Kaxináua que desciam o rio me deram uma carona (inclusive com a moto) até Marechal Thaumaturgo. De lá a moto foi embarcada em um batelão que me trouxe de volta para Cruzeiro do Sul.
Com isso completava uma viagem de mais de 4 mil quilômetros cruzando florestas, montanhas, desertos, conhecendo um país com mais de 5 mil anos de historia, com problemas e contradições muito semelhantes ao Brasil, mas que com certeza também tem muito a ensinar e aprender conosco. Um verdadeiro universo de possibilidades, não apenas de comércio de trocas culturais, de valores, de um povo que tem a nós, brasileiros, em alta estima.


Posso dizer que foi uma verdadeira "viagem sem volta", uma vez que nunca voltei, apenas "dei a volta", completando um circulo mco9mpleto saindo de CZS- Rio Branco - Assis Brasil - Puerto Maldonado - Cuzco - Abancay- Nazca - Lima - La Oroya - Tingo Maria - Pucalpa - Yuruá - Marechal Thaumaturgo - Cruzeiro do Sul.

O que é que Pucallpa tem?


As noticias recentes de que o intercambio comercial com Pucallpa está há apenas um pequeno passo de se tornar realidade, desperta em nós a curiosidade para saber o que esta cidade com pouco mais de 400 mil habitantes teria a oferecer a nossa região.

Um rápido passeio pelas ruas de Pucallpa já nos chama a atenção a grande quantidade de “rípio”(cascalho) utilizado para melhorar as condições de trafegabilidade nas ruas.

Também chama a atenção a grande variedade de frutas, verduras e legumes, alguns dos quais nos são totalmente desconhecidos. Há fartura de uvas, macas, pêssegos e frutas como o saboroso e suculento “melão pepino”. Uma grande variedade de tipos de maracujás, figo-da-índia e cítricos.

O fato é que Pucallpa está há pouco mais de 800 kilometros de Lima, e há menos de 500 da região serrana de Huanuco. Resta muito poço para que a “Carretera Central”(Lima-Pucallpa) seja concluída, e apesar disso, o tráfego já é possível de inverno a verão.
Com isso, podemos dizer que a integração com Pucallpa não se dará apenas com a região do Ucayalli, mas com todo Peru. O relevo acidentado deste país permite uma infinita gama de micro-climas que possibilitam o cultivo de frutas típicas dos países temperados em áreas próximas a selva.

O rio Ucaially permite a ancoragem de navios de grande calagem que embarcam desembarcam petróleo e cimento em grandes quantidades. As ruas de Pucallpa também são fartas de lojas de auto e motopecas que movimentam um setor importante da economia ucaialina.

Também surpreende-me saber que há, em Pucalpa uma fabrica de ração para peixes que poderia representar um importante incremento para os setor de piscicultura.

Intercambio Cultural

No entanto, a ligação com Pucallpa permite bem mais do que a troca de mercadorias. Um grande numero de instituições de educação poderiam vir a ser compartilhadas também com brasileiros. A principal destas instituições é a Universidade Nacional de Ucayally que oeferece cursos de Direito e Ciências Políticas, Medicina, Administração, Contabilidade, Engenharia Florestal e Agronômica e Educação. Há também a Universidade Intercultural de la Amazônia, criada para atender as comunidades nativas com os cursos de Educação, Engenharia Florestal e Administração. Afora estas duas instituições públicas de ensino superior existem duas outras universidade particulares em funcionamento: a Universidade Privada de Ucayalli, e a Universidade Alas Peruanas esta com o curso de engenharia ambiental.
Em nível técnico, os pucalpinos contam com o SENATI (semelhante ao nosso SENAI) que oeferece cursos de mecânica automotiva, eletricidade indústria, mecânica de manutenção, mecânica de motores menores e inglês técnico.

Lazer

O centro de Pucallpa não é de fato um lugar muito atrativo ao turismo, ainda assim, os arredores do lago Yarinacocha, um outro distrito de Pucallpa, possui inúmeros bares, restaurantes e locais para dançar a “cúmbia”, verdadeira paixão nacional.
Também se oferecem passeios de barco para vistar a “jungla” espécie de mini-zoológico do outro lado do Yarinacocha.

Na avenida centenário, em direção ao aeroporto há um Parque Natural com um Zoológico com espécies nativas. Na cidade de Contamana (95 km , 30 min de avião ou 12 horas de barco) existem balneários com águas termais e Huánuco (450 km – acesso rodoviário) possuiu um dos melhores climas do mundo. Sua temperatura levemente fria e seu ar mais seco, são recomendados pela OMS para o tratamento de problemas respiratórios, cidade a que recorrem muitos ucayalinos para este fim.

Pucalpa dá adeus à Pablo Amaringo



Verdadeiro icone da cultura ucayalina, Pablo Amaringo (vale a pena uma visita no site oficial para ver suas pinturas) ganhou notoriedade inernacional desde quando decidiu pintar suas visoes com a ayahuasca. Suas pinturas forma temas de estudos internacionais sobre a consciencia humana e tornou-se referecia para ayahuasqueiros do mundo todo. Uma de minha spretensoes de vir a Pucalpa era de coñéese-lo pessoalmente e quem sabe, realziar uma entrevista. Contudo, no dia seguinte em que cheguei, vi estampadas nas manchetes dos principias jornais de Pucallpa a noticia de seu falecimento, aos 73 anos. Os dias segintes foram repletos de um sentimento de comoçao publica por esta perda. Pablo Amaringo mantinha uma escola de pintura no Ucaially.

Lago Yarinacocha

Principal cartao postal de Pucalpa, o lago Yarinacocha (literalmente, lago da Jarina) é utilizado nos fins de semana para recreaçao e lazer, desde os mais humildes, aos mais abastados. Contudo, os pucalpinos estao preocupados com o crescente assoreamento do lago que pode vir a desaparecer com o tempo. Em parte um processo natural, mas que também é acelerado pela ocupaçao humana indiscriminada em suas margens. O governo departemental tem determinado a dragagem como forma de manter o “Yarinacocha.”

Conhecendo a um "Maestro"

Mesmo com cerca de 12 anos de ayahuasca, sempre fui relutante em procurar por “chamanes” no Peru. O principal motivo é que me soa estranha a abordagem “turística” da ayahuasca que muitas vezes se faz por aquí, principalmente por conta do assédio de milhares de estrangeiros europeus e norte-americanos.
Por esta razao, e para evitar sofrimentos desnecesarios, preferi ficar “na minha” aquí em Pucallpa.
Mas, depois de uma semana de tentativas frustradas de deixar o Ucayalli, mudei de idéia.
Pensei, que se afinal de contas estou aquí, e nao posso sair por razao das chuvas, por que nao entao aproveitar este momento e conhecer um pouco da magia Shipibo, que faz gente de tao longe vir até aquí?

Procurei entao em uma casa de “artesania” no Lago Yarinacocha, recorrendo a quem poderiam aquelas señoras conhecer. Apresentaram-me a um señor de aproximadamente 50 anos, Miguel. Disse-lhe que estava me sentindo um pouco mal de saúde e que necesitava abrir meus caminhos para chegar em casa.

Ele me recebeu muito bem em sua humilde casa. Na verdade um grande salao coletivo, onde vivem seus filhos, com as esposas e netos. Algunas horas antes da cerimonia deu-me uma bebida bem forte: um extrato de plantas medicinais.

Chegada a hora da ceremonia, surpreendeu-me a forma da bebida: praticamente sem cheiro ou gosto, e de uma consistencia bastante apurada. Deu-me uma quantidade pequena, o equivalente a um cálice.
Nao demorou para que comecasse a fazer efeito. Ao som de seus Icaros, a Força a foi chegando. Em dado momento, Dom Miguel pediu-me que me sentasse (estava recostado) e disse: “Si puedes, mira-me”. Fiz o que pediu, embora fosse muito difícil. A Força tornou-se insuportavel. Passei por um sofrimento muito grande, mas a parte de tudo isso, sentia uma total confiança no “Maestro” que conduzia o trabalho.
Enfim, vomitei. Não fora um simples vomito, mas um vomito que limpava os reconditos mais escuros e dolorosos de minha alma. Passei a suar como nunca antes e associei em parte a bebida que havia me administrado horas antes. Sua esposa, com igual competencia, cuidava de mim, com suas maos perfurmadas susteve minha cabeça, e percebi estar diante de pessoas cujo tamanho do conheceimento só podia ser comparado com seu prório amor.

Após vomitar por duas, tres vezes e suar copiosamente, também comecei a escarrar, limpando também os bronquios.

Somente depois disso comecei a mirar. Não foi necessaria uma segunda dose. Aquela pequena quantidade durou por mais de 4 horas. Entrei em um tempo agradável, sentindo fluir em volta de mim um amor e uma luz, uma confiança como munca antes.

Desenhos Shipibo reluziam por todo espaço em nossa volta e percebi se tratar de um povo de ayahuasqueiros milenares. Alegre, Dom Miguel cantava agora a sua esposa, que dançava suavemente ao som de seus Icaros.

Dom Miguel provou diante de meus olhos, de se tratar de um “Maestro” de verdade. Durante toda a ceremonia, nada, exatamente nada, saiu de seu comando. Nenhum som, movimento ou pausa de silencio foi por assim dizer “a toa”.
Tudo ocorreu dentro de uma sincronia perfeita, fruto de uma conexao impecavel, que somente um verdadeiro “Maestro” pode ter.